Autismo, Sucesso e Boa vida: Como essas coisa podem estar relacionadas?
Eu duvido que você nunca tenha parado para pensar sobre o sucesso. Tanto o seu, quanto o dos outros.
A verdade é que vivemos imersos em uma época em que sucesso, na maioria das vezes, ou para a maioria das pessoas, significa performar bem. Isso também abre caminhos que nos leva a pensar sobre o que significa performar bem.
Para muitos, ter dinheiro e viver buscando incansavelmente chegar a ter o patrimônio e os lucros de alguém que está na bolha dos 1% da população brasileria, ou seja, com mais de R$20 mil na conta, já é um indicativo de sucesso.
Para outros, ter uma renda média que permita viver uma vida mais confortável, com um bom carro, casa e viagens de férias com a família já satisfaz.
A verdade é que a realidade em que a gente vive hoje, não só econômica, mas também cultural, parece que nos pressiona a seguir esses padrões rígidos de performance e produtividade.
Somado a isso, existem os feeds das redes sociais que são deslizados diariamente, transformando qualquer espirro cotidiano em uma performance instagramável na busca por viralização e fama.
Ao mesmo tempo vivemos em um Brasil desigual, onde quem ganha o mínimo, não tem as necessidades básicas atendidas de forma digna. Parece que isso acaba se tornando mais um ingrediente manipulável nas mãos de quem tem o poder de gerar narrativas que incitem o desejo de estar entre os poucos que conseguem o tão famigerado "sucesso".
E assim vamos vivendo nas fronteiras das narrativas dos coaches que sustentam que performance e resultados é uma questão de mentalidade. Esses mesmos que dizem que você precisa andar com pessoas que te agreguem valor para que você possa chegar onde deseja, também sustentam uma contradição narrativa de exclusão que parece se encaixar mais como o retrato fiel do que relamente acontece: se rico é quem tem mentalidade forte e você anda com pessoas de mentalidade forte, logo, rico anda com rico, pobre, anda com pobre. A não ser que o pobre queira aprender a ser rico, sendo levado à exaustão em um projeto de performance que nunca alcança um fim, porque a contrução está e sempre estará em curso.
Agora para e pensa mais um pouco: e se, só por um dia, você tivesse dificuldade de dizer um simples "oi" para um desconhecido? Se uma simples situação cotidiana virasse um roteiro ramificado em multiplos questionamentos sobre o que vai acontecer, como será, o que devo fazer, como preciso me movimentar, etc. E se junto de tudo isso seu corpo ainda disparasse um alarme interno, como se cinco leões fossem te devorar a qualquer momento. Nesse cenário, você precisa agir rápido, mas ao mesmo tempo, se mexer também pode ser perigoso. Nesse mesmo contexto, você ainda considera que alcançar o sucesso seria possível?
Talvez de um jeito tosco e sem muito filtro, eu tenha acabado de descrever a situação de algum neurodivergente em uma situação social. E considere que eu disse UM neurodivergente, porque essa situação pode acontecer internamente e se manifestar de muitas formas, já que autistas são diferentes entre si.
Onde eu quero chegar com isso? EU quero dizer que para um autista, sucesso não parte do mesmo lugar, não tem o mesmo significado, não se constrói na mesma tragetória, mas também não significa que não queremos ter casa, carro, dinheiro e tudo o mais que neurotípicos gostaria de ter.
Para falar sobre isso a gente pode usar de inspiração um estudo que foi feito por autistas e com autistas. O artigo do estudo publicado não investigou diretamente o sucesso, mas explorou sobre o que poderia significar uma vida boa. Porém, vamos destacar aqui que o estudo foi feito em um país economicamente mais favorável do que o Brasil. Ainda assim, conseguimos traçar um panorama sobre sucesso e neurodivergência.
Neste estudo, um conceito da psicologia positiva denominado Florescimento foi explorado em um outro contexto.
Sob o ponto de vista de uma literatura clássica, Hedlund et al. (2025) apontam o florescimento como um construto multidimensional explicado, de certa forma, por emoções positivas e, principalmente, por um bom funcionamento psicológico e social. Só que isso é a perspectiva neurotípica das coisas. A partir disso os cientistas ampliaram esse conceito, gerando um questionamento se esta perspectiva também contempleria a experiência de mulheres autistas.
As respostas recebidas, foram diferentes. Segundo as mulheres autistas que participaram do estudo, o parâmetro que define uma vida boa não se localiza em ter status, ganhar mais dinheiro ou produzir cada vez mais. Antes disso, as participantes se posicionaram a favor de não abandonar quem se é.
A narrativa girou em torno de ter autonomia, poder fazer escolhas que respeitem seus limites. Também mencionaram sobre construir relações seguras, nas quais não fosse necessário mascarar constantemente seus comportamentos para serem aceitas. Falaram ainda sobre cuidar da saúde mental e sentir pertencimento.
Tudo isso nos leva a refletir sobre o ponto de partida. Enquanto pessoas neurotípicas carregam consigo habilidades que parecem tão intuitivas e intrínsecas à normatividade, algumas pessoas autistas precisam desenvolver tudo isso, processando, compreendendo e adequando tudo a um funcioamento diferente. Isso significa que, para muitas pessoas autistas, antes mesmo de direcionar energia para metas materiais, existe um esforço constante para construir condições psicológicas que tornem esse caminho possível.
O que ajuda a abrir as portas, ou seja, uma boa comunicação, socialização, aceitação social às diferenças, ainda é uma barreira imposta que exige caminhos diferentes em toda essa jornada.
É por isso que muita gente fica feliz de conseguir entregar um trabalho a faculdade, mesmo depois de pensar sucessivas vezes em decidir. O sofrimento é maior e o diploma, consequentemente, vai ter um peso e um significado diferente. Tudo isso, também pode moldar a forma com que as autocobranças surgem na entrada do mercado de trabalho. Mas isso já é assunto para um outro post.
Na terapias cognitivo coontextuais contemporâneas, o que mais se aproxima do conceito de florescimento, é a vida guiada por valores. Quando adapamos as TCCs para o atendimento de pessoas autistas, essas questões são colocadas sobre reflexão, gerando motivação e ajudando a diminuir o peso de toda essa jornada.
Entender o motivo que leva cada coisa a ser importante na vida de uma pessoa autista, acrescenta significado ao que antes parecia vazio e sem sentido. Isso também muda a frma com que se sustenta o processo, valorizando cada pequena vitória diária. Perceber a si mesma, permite uma construção mais leve de bem estar subjetivo e maior qualidade de vida.
Aqui a gente parte da premissa de que talvez sucesso não signifique chegar primeiro.
Talvez sucesso seja conseguir construir uma vida com significado para você, respeitando o seu modo de funcionar, sem precisar adoecer para caber em expectativas que nunca foram feitas pensando na sua neurodivergência.
Se você é autista e está enfrentando desafios na universidade ou no mercado de trabalho, talvez o primeiro passo não seja acelerar. Talvez seja descobrir quais valores realmente sustentam o caminho que você deseja construir. E a psicoterapia pode se traduzir em um ótimo ponto de partida para isso.
Inspirado em:
Hedlund, Å., Eriksson Wester, M., Edenvik, P., Ingard, C., Isakson, K., Kron Sabel, L., Unéus, D., Lindström, T., Black, M. H., & Bertilsdotter Rosqvist, H. (2025). A good autistic life: an autistic-led conceptualization of autistic flourishing through autistic women's-lived experiences. Frontiers in sociology, 10, 1611803. https://doi.org/10.3389/fsoc.2025.1611803
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