Autismo e Apostas on-line: para neurodivergente o perigo é ainda maior

   

Bets e autismo    A derrota do Brasil na copa de 2026 acende debates calorosos em diversas bolhas on-line. Existem discussões para todos os gostos que se ramificam entre política, análises feitas por especialistas em esportes e também pelo coração de torcedores que carregam engasgado a vitória que não veio e a conduta dos jogadores. Dentre os debates e opiniões, não é difícil encontrar o assunto "Bets", "Plataforma de jogos on-line" e a aderência de jogadores e famosos que aumentam seu patrimônio divulgando tais empresas. 

    Olhando para essa questão de uma forma mais aprofundada, fica impossível não pensar em quem está do outro lado dessa "relação": pessoas que perdem quantias exorbitantes ou até mesmo quem perde o pouco que tinha para o próprio sustento na esperança de ficar rico vendo um Brasil campeão. Questão que já virou corriqueira no nosso país. 

    Porém, existe algo para além disso que merece um destaque especial e que não é muito comum nas conversas cotidianas. Autistas crescem, adultos autistas existem e também são capturados por jogos on-line. E é exatamente o fato de essa relação com os jogos se dar de forma totalmente diferente, considerando o funcionamento atípico, que merece atenção e cuidado.


Funcionamento Atípico e as decisões nas BETs

    O funcionamento autista é marcado por características únicas. Tais características muitas das vezes caem em estereótipos sociais que funcionam como um ingrediente a mais na invisibilização de pautas que realmente importam. O estereótipo da infantilização, por exemplo, gera elos que se prendem a mitos comuns que perpetuam problemas e geram sofrimentos. Dizer que um autista é inocente não ajuda a causa, nem o indivíduo. Não faz com que olhem para adultos e considerem a possibilidade de uma adicção em qualquer tipo de vício, afinal de contas, gente inocente não faz coisa de adulto. Dessa forma, enquanto o estereótipo do anjo azul ganha força, os adultos neurodivergentes enfrentam, no absoluto silêncio, os danos devastadores das apostas on-line.

    Se você está lendo isso, já mostra que você é bem consciente dessas questões ou então que o primeiro passo já foi dado para sair do limbo da ignorância. 

    As apostas feitas nessas plataformas, são feitas com base em decisões. Claro que dizer isso não resume os motivos de uma pessoa ganhar ou perder, já que em qualquer jogo desse tipo, "a casa sempre ganha". O que chama atenção aqui é que neurotípicos não têm vantagens sobre autistas em decisões desse tipo. Estudos mostram que, alguns autistas, são capazes de tomar melhores decisões que neurotípicos quando se tratam de jogos on-line. 

    O grande problema que gira em torno disso tudo é composto por três elementos simples que, quando conectados, se tornam a pá perfeita para cavar o poço que vai abrigar o autista lá no fundo: A fuga de estímulos sociais, o hiperfoco e a impulsividade atencional.


A fuga de estímulos sociais: o refúgio digital

    Não é segredo para ninguém que autista tem dificuldade social. Inclusive isso é um dos critérios diagnósticos. Isso gera não só desconforto como pensamentos em looping que corroboram para que seja tentador evitar essas experiências de interação com outras pessoas. 

    Somado a isso existe um mundo ao qual não foi projetado para acolher o diferente, ao mesmo tempo que se vende uma ideia falsa e fracassada de inclusão. A sociedade regida por um padrão essencialmente normotípico é cansativa para pessoas neurodivergentes. 

    Socializar exige habilidades que não vêm instaladas de fábrica no sistema operacional autista e isso gera uma sobrecarga intensa. Interpretar gestos, expressões faciais, processar ironias e piadas, pensar no que dizer, como dizer, lidar com barulhos que causam confusão, dor e desconforto, processar regras implícitas que nem sempre fazem sentido... Tudo o que é considerado intuitivo para a sociedade normotípica, pesa para neurodivergentes. O resultado disso é um grande convite ao isolamento.

    A distração da BETs, nesse caso, se torna a anestesia perfeita para enfrentar esse isolamento que se torna cada vez mais tentador quando processado como um espaço sem julgamento alheio, sem olhares travessados, sem ambientes exaustivos. Percebe que o raciocínio e a captura aqui se tornam algo diferente, que nada tem a ver com dinheiro, mas sim com conforto e previsibilidade? Mas não acaba por aí.


O hiperfoco: a busca persistente pelo padrão

    Se tem algo agradável a alguns funcionamentos cerebrais é a habilidade em buscar por padrões. Olhar em volta e enxergar o que outras pessoas não enxergam abre caminhos para resolução de muita coisa que parece complexa aos olhos dos outros.

    Essa habilidade, quando vai de encontro a uma tela organizada, estruturada de uma  forma visualmente estratégica, com elementos que preservam a necessidade de análises lógicas e probabilidades, acaba sendo palco para roubar a atenção e prender o autista.

    Nesse caso, ganhar ou perder acaba tendo outro significado mais profundo. A busca passa a ser por decifrar o algoritmo, encontrar o padrão, muitas vezes de programação em que toda a dinâmica foi feita. O desafio deixa de ser financeiro e passa a se tornar um veidadeiro embate intelectual. 

    O hiperfoco entra nessa dinâmica como uma lente de aumento, quando o autista passa a se desligar do mundo exterior e de suas necessidades básicas para executar uma verdadeira imersão em ambiente digital. A perda deixa de ser dinheiro jogado fora e passa a ser encarada como um erro de cálculo que precisa ser superado. Ela se torna investimento em dado, em desafio a ser vencido, como se fosse a aquisição de mais um item para uma coleção.

    Nesse momento o terceiro elemento aparece fechando o cerco.


A impulsividade atencional: o convite a permanência absoluta

    A busca por padrões prende o autista na tela, mas a impulsividade atencional o faz não desviar o olhar para o lado. Na tela já existe bastante informação visual capturando o cérebro neurodivergente que já busca naturalmente por interesses específicos e conexão genuína.

    É importante dizer que autistas gostam de socializar, porém, com tantas tentativas frustradas diante de tantas regras sociais implícitas, muitos desistem quando enxergam os resultados de uma interação como fracasso constante. Somado a isso já tem forte habilidade neurotípica em invalidar o que foge da norma, fortalecendo ainda mais a ideia de que a melhor opção é mesmo focar onde se tem mais sucesso. 

    Então, a atenção fica presa ali, naquela tela, alimentando um looping interminável e compulsivo de checagem do app e das notificações a cada 5 minutos. 

    Agora pense que tudo o que a gente faz repetidas vezes acaba virando hábito. Acontece que para o neurodivergente, tal comportamento de checagem, não só vira um hábito, como também um recurso aurregulatório.

    É aqui que tudo se conecta em uma oportunidade perfeita para o caos. A previsibilidade e a repetição acalmam o sistema nervoso neurodivergente. Quando esse comportamento se instala, o vício não aparece da mesma forma que em pessoas típicas, mas se disfarça de necessidade biológica. 

    O adulto autista aprendeu que jogar faz parte de uma dinâmica previsível que o regula a viver em um mundo de exaustão que não foi feito para ele. Enquanto isso, silenciosamente  a conta bancária vai ficando vazia e a saúde mental segue o mesmo ritmo cruel.


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    Sou a Nathaly França, psicóloga (CRP 05/86463) e trabalho no atendimento a jovens e adultos neurodivergentes.

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Chamberlain, S. R., Aslan, B., Quinn, A., Anilkumar, A., Robinson, J., Grant, J. E., & Sinclair, J. (2023). Autism and gambling: A systematic review, focusing on neurocognition. Neuroscience and biobehavioral reviews, 147, 105071. https://doi.org/10.1016/j.neubiorev.2023.105071

Grant, J. E., & Chamberlain, S. R. (2020). Autistic traits in young adults who gamble. CNS spectrums, 21(6), 1-6. Advance online publication. https://doi.org/10.1017/S1092852920001571