Como o celular diminui o foco na nossa capacidade de atenção plena e produz o piloto automático
Passei alguns segundos pensando em como elaborar esse texto para falar sobre foco, atenção e piloto automático, sem que ficasse complicado demais. Por outro lado não queria que saísse um texto jogado de qualquer jeito na tela, a ponto de parecer banal. Também precisava que fosse escrito de forma genuína, já que prefiro uma leitura fluida, uma conversa entre eu e você. Acho que prezo pelo simples, com profundidade e um toque de pensamento crítico. Na roda de amigos eu sempre fui a que "problematiza" muito as coisas. Isso me levou a problematizar também o que vem acontecendo em nossa época.
Recentemente, tivemos a ocorrência de um episódio que deixou o nosso país abalado ou talvez incrédulo sobre o que estava vendo. Um esporte radical no interior de São Paulo viralizou nas redes sociais e acendeu discussões sobre o que estava acontecendo. O esporte utilizava apenas um instrumento: uma corda. Assim como skatistas usam skate, surfistas usam uma prancha, ciclistas usam uma bicicleta, o rope jumping usa uma corda. O ocorrido de fato: A corda não foi utilizada e isso custou uma vida.
Enquanto o assunto virou pauta, as redes sociais se dividiram entre discutir sobre quem teria responsabilidade sobre o ocorrido e quem pontuava que o vídeo, filmado de diversos ângulos, era fruto da Inteligência Artificial. Eu fiz como todo mundo, fiquei rolando o feed, só que a minha pergunta foi outra, talvez porque eu ainda acredite na humanidade: O que aconteceu que ninguém viu o que estava ali, na frente dos olhos de todo mundo?
Nesse momento, enquanto eu olhava por outra perspectiva, minha mente deu um salto lógico e uma ideia passou a martelar na minha cabeça. Não me importava julgar quem era o culpado porque isso é dever da justiça. O que me interessou foi assistir afo vídeo observando o comportamento de quem filmou, de quem avisou, de quem não escutou e de quem nem sequer se deu conta de que a corda não estava presa ao equipamento de segurança. Havia ali um personagem em comum, que estava o tempo todo presente mas que, por se tornar quase parte da gente, não teve a devida importância sobre sua presença: o smartphone que sequestra a nossa atenção.
Em um estudo publicado em 2010, os pesquisadores colocaram um palhaço andando em cima de um monociclo, durante uma hora, enquanto pedestres atravessavam de um lado para outro. Muita gente não viu o palhaço porque estava com a atenção focada em outra atividade como, por exemplo, olhar o celular.
A cegueira atencional é mais comum do que se imagina. Quantas vezes você já deixou de responder a alguém ou já perdeu uma informação importante e precisou, reler, ouvir de novo, recalcular porque algo te distraiu? Se atentar a algo funciona como uma aba aberta em um computador. Agora imagina esse cenário, com várias abas abertas ao mesmo tempo. Isso sobrecarrega o sistema e o computador funciona mais lento do que deveria.
Só o fato de se ter um celular por perto, mesmo sem mexer nele, já é suficiente para fazer seu cérebro gastar mais energia para simplesmente inibir seu impulso de fazer uma checagem a todo momento. Isso por si só, nos leva a refletir como uma única ação praticada repetidas vezes se torna um hábito que nos coloca no piloto automático.
Dados coletados do resultado de eletroencefalograma também comprovam que o barulho das notificações gera conflito de controle cognitivo atrasando respostas cerebrais que poderiam se tornar mais imediatas na ausência desses estímulos.
Do ponto de vista da psicologia comportamental e da neuropsicologia, nós não estamos só ditraídos, mas sim condicionados, a todo momento, à fragmentação de nossa atenção. O tédio se torna insuportável porque a busca por recompensa rápida tende a vencer. Agora acrescenta o ingrediente da necessidade de pertencimento e você vai ter o cenário perfeito para carimbar e entregar o controle do seu dia a dia ao piloto automático.
Queremos estar conectados o tempo todo para não perder nada, mas curiosamente, perdemos pedaços relevantes da nossa vida de notificação em notificação, de checagem em checagem. Enquanto nossa atenção é sequestrada, nossas memórias vão sendo substituídas ou interrompidas, nossa sensibilidade vai sendo anestesiada e nossa motivação vai se perdendo em feeds, vídeos e métricas que nos moldam sem que sequer possamos estar conscientes disso.
Porém, nem tudo está perdido. Existe um estudo publicado recentemente (2025), comprovando que intervenções simples como desligar a internet por apenas duas semanas foi o suficiente para devolver as pessoas a capacidade sustentar a atenção, além de melhorar significativamente os índices de saúde mental e bem estar subjetivos. Ter de volta a atenção plena não exige que a gente deixe de usar o celular e volte ao tempo das cavernas, mas sim que possamos ter consciência dos excessos que nos prejudicam e de quando decidimos desligar o piloto automático e voltar a manter o controle sobre a nossa vida.
Referências
Castelo, N., Kushlev, K., Ward, A. F., Esterman, M., & Reiner, P. B. (2025). Blocking mobile internet on smartphones improves sustained attention, mental health, and subjective well-being. PNAS Nexus, 4(2), pgaf017.
Hyman, I. E., Jr., Boss, S. M., Wise, B. M., McKenzie, K. E., & Caggiano, J. M. (2010). Did you see the unicycling clown? Inattentional blindness while walking and talking on a cell phone. Applied Cognitive Psychology, 24, 597–607.
Skowronek, J., Seifert, A., & Lindberg, S. (2023). The mere presence of a smartphone reduces basal attentional performance. Scientific Reports, 13, Article 9363.
Upshaw, J. D., Stevens, C. E., Jr., Ganis, G., & Zabelina, D. L. (2022). The hidden cost of a smartphone: The effects of smartphone notifications on cognitive control from a behavioral and electrophysiological perspective. PLOS ONE, 17(11), e0277220.
Ward, A. F., Duke, K., Gneezy, A., & Bos, M. W. (2017). Brain drain: The mere presence of one’s own smartphone reduces available cognitive capacity. Journal of the Association for Consumer Research, 2(2), 140–154.
0 Comentários